“Nós estamos pedindo para respirar”, afirma Claudiomiro da Silva

Não é de hoje que a sociedade discrimina e desrespeita cidadãos negros. Muitos acreditam que é uma realidade distante ou que, por estarmos já no ano de 2020, isso não ocorre mais. Diariamente, muitos pessoas sentem-se ameaçadas, julgadas e excluídas pela sociedade, simplesmente pela cor da sua pele. Infelizmente, casos cruéis de racismo têm que ocorrer, como a morte de George Flowd no dia 25 de maio, nos Estados Unidos, para que isso se torne uma pauta mundial.

No Brasil, segundo a Pnad Contínua do IBGE, 56% da população se declara negra ou parda, ou seja, 108,9 milhões de pessoas. De acordo com pesquisa do Datafolha, realizada em 2018, entre os negros, 55% dizem já ter sofrido descriminação racial, enquanto que para os brancos, esse número fica em 11%. Além disso, os negros são as maiores vítimas de homicídios no Brasil. Segundo o Atlas da Violência, em 2017, 75% das pessoas assassinadas no país eram pretas ou pardas. A chance de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 2,5 vezes maior do que a de um jovem branco.

Com isso, a rádio Miriam Caravaggio conversou com Claudiomiro da Silva, que é negro e há diversos anos participa de movimentos representativos. Ele nos falou sobre a sua percepção quanto aos manifestos ao redor do mundo, sobre o racismo e a violência contra o negro no Brasil, como isso ocorre na Serra gaúcha e comentou, também, sobre o que é necessário para vencer a discriminação.

 

Miriam Caravaggio: Como você vê essa onda de manifestações?

Claudiomiro da Silva: Estou muito triste. Vivemos uma semana triste, onde um segurança negro, agredido, descriminado, só pediu para respirar. Oito minutos pedindo para respirar e teve a vida ceifada por um guarda branco, da raça da maioria nos Estados Unidos, onde não teve a liberdade e o direito de respirar. Eu sou a favor das manifestações. O negro é ouvido só nesse momento. E mexeu com o mundo isso, mexeu com autoridades, presidentes, mexeu com quem tinha que mexer e vai mexer muito mais. Graças a Deus que hoje nós temos meios de comunicação, celular para gravar, que conseguem gerar repercussão no mundo em questão de segundos.

Miriam Caravaggio: Esses fatos geram comoção social, mas é possível alcançar mais do que isso?

Silva: Começa com um fato, com a comoção do povo, daí o povo vai ter a leitura do que o negro precisa, do que a população precisa, do que a sociedade precisa saber para ter uma convivência melhor com a população negra. Nos Estados Unidos só tem 13% de população negra, no imenso país que é o planeta norte americano. Onde o negro sofre nos Estados Unidos? Em todos os estados há descriminação. E lá não é velada a descriminação. Eles dizem que não gostam, eles matam, eles não respeitam o negro. Tem lugares que parece o antigo Apartheid, onde tinham calçadas, boates, mercados só para negros. A história do negro está regredindo. Nós estamos pedindo para respirar. Pedindo para respirar oito minutos. Pedindo para não ter a vida ceifada. Pra ter o direito de viver. Então, é triste, é triste saber disso!

Miriam Caravaggio: Seguidamente há casos de negros sendo mortos, principalmente jovens, que talvez não tenham a mesma repercussão que o caso dos Estados Unidos. Como você vê esse cenário no Brasil, por que não se tem essa mobilização toda?

Silva: No Brasil há uma população muito grande de negros. Nós somos, diz o IBGE, cerca de 60% da população. Aqui no Rio Grande do Sul nós somos pouquinhos, mas se subir um pouco, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, a maioria é negra. Eu achei que esse mundo ia mudar depois da pandemia, que fosse se unir mais, pensar no outro, mas eu vi que regredimos mesmo. Essa semana tivemos casos assustadores.

Miriam Caravaggio: Você já se sentiu vítima do racismo na região, no Rio Grande do Sul ou nos locais que você percorreu ao longo da vida?

Silva: Já, tenho diversas histórias de preconceito racial. Todo dia há preconceito, há dúvida na cabeça de pessoas que praticam o desrespeito a outras pessoas. Tem diversas histórias, diversas, diversas… mas que são superadas. A gente tenta mostrar que não somos diferente, a gente é igual. A gente tem deveres, a gente paga conta, a gente trabalha, a gente estuda, a gente tem família, necessita do trabalho. A gente tem esse direito, esse direito foi nos dado, embora em certos momentos nos foi tirado. Parece que foi assinado a lápis, dá pra apagar com a borracha, a Lei Áurea, a Lei Afonso Arinos, a Constituinte, foram apagados as artigos que remetem ao preconceito racial. No Brasil as coisas não são mais veladas, é crime, eles praticam, se deixar, eles fazem na cara dura isso, a qualquer momento, na frente de qualquer um.

Miriam Caravaggio: Como combater o preconceito e qual deve ser a participação do branco na luta pelo fim do racismo?

Silva: Ele tem que respeitar! Falta o respeito com as etnias, falta oportunidade ao negro. Eu vejo que há poucos negros que fazem parte da sociedade. Eu sou a favor das cotas, mas as cotas em tudo, senão o negro não vai ter o seu espaço. Eu sou a favor de ter um negro médico, advogado, dentista, juiz. Tem que ter essa oportunidade ao negro. A sociedade tem que nos dar essa oportunidade. Mesmo tendo estudo, as pessoas dizem: imagina aquele negro médico, aquele negro dentista, eu não vou me consultar com aquele. Ainda há esse preconceito. Aqui em Farroupilha, nós temos um médico cirurgião negro, atende no São Carlos, e já ouvi histórias de discriminação dele. Então, o branco tem sim um percentual que ele pode ajudar sim. Não é só o negro se ajudar com estudo, buscar conhecimento. A sociedade também tem que ajudar.

Miriam Caravaggio: Em Farroupilha, o preconceito é velado ou não?

Silva: Não é mais velado, não. As pessoas se cuidam muito quando as pessoas sabem que a gente é de um movimento negro, faz parte e tem uma consciência crítica. As pessoas cuidam em falar pra ti a vontade delas e a rejeição delas contra o negro. Mas a gente sabe que tem! Em Farroupilha tem histórias ruins, histórias dolorosas de negros que não tiveram a vida ceifada, mas que já correram perigo por serem negros. Simplesmente por serem negros. O que sofre mais aqui nessa região é a mulher negra. A mulher negra ela é discriminada duplamente, uma por ser negra e outra por ser mulher. O fato dela ser um pouco mais alegre, um pouco mais sorridente, que a nossa raça e a nossa cultura é desse jeito, mesmo estando triste a gente ri, mesmo sendo cortados os nossos dedos, a gente dá risada, a mulher negra ela é discriminada, ela é taxada como prostituta, mais fácil pelos machistas. Então, é doloroso saber da questão da mulher negra aqui nessa região.

Miriam Caravaggio: A educação nas escolas ainda aborda pouco este tema?

Silva: A evasão do negro na escola é triste, é uma coisa que nos choca bastante também. Hoje eu trabalho no Conselho Tutelar e, as vezes, presencio isso. Eu trabalho com os problemas mais cabulosos das famílias, mas antes já via coisa pior. A evasão escolar do negro é muito grande. O negro deixa de estudar para ajudar a família, deixa de ter as suas coisas, de ter os seus sonhos, pra ter uma renda melhor na família. Nada vem de “mão beijada” pra gente. Quando chegaram os italianos aqui, eles vieram com a trena e mediram o terreno, desceram do navio já medindo o terreno. Nós não, os negros não. Nós descemos do navio como escravos. Eu cito: os japoneses com a inteligência, os italianos fazendo a uva, com toda a sua história magnifica. Vieram também com o sofrimento. Mas nós viemos escravos. O Rio Grande do Sul é o estado que mais discrimina, tem muito mais problemas que os outros estados do Brasil. Está muito próximo daquela cidade americana, que deu essa repercussão toda. Só que aqui as coisas não vão para a mídia. Aqui o negro tem medo de correr, tem medo de sair à noite, tem medo de sair com o seu carro. Se tem um carro um pouco melhor, tem medo de ser confundido com o ladrão do seu próprio carro. Tem negro que tem esse medo.

Miriam Caravaggio: O que pode ser feito para termos uma sociedade melhor, com respeito e sem preconceito?

Silva: Tem uma frase de um grande amigo que pode resumir tudo: a educação é a base de tudo. A educação. O negro tem que buscar o estudo, o conhecimento, para esse mundo ser melhor, mas a sociedade tem que ajudar. Na luz da escuridão a nossa alma é preta. Se você for ao encontro da luz, todos nós somos pretos.