Medo, perdas, exaustão e superação: sentimentos que marcam um ano de pandemia em Farroupilha

A data é março de 2020. O Brasil contabilizava os primeiros casos de coronavírus. A sensação era de medo, aflição e incerteza, pois ninguém sabia ao certo o que iria acontecer. Inicialmente, os casos eram observados nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Em 10 de março, o Rio Grande do Sul positivava o primeiro gaúcho com o vírus. Com isso, o que parecia distante foi chegando cada vez mais perto, tanto que, no dia 18 de março de 2020, Farroupilha divulgava o seu primeiro positivado com Covid-19. A confirmação fez com que a Prefeitura de Farroupilha decretasse quarentena na Vila Jansen, interior do município, local de residência do homem de 37 anos.

Nesta quinta-feira, 18, o município completa um ano de pandemia. Neste longos meses, todos nós fomos aprendendo a viver sob novos hábitos, principalmente de higiene e cuidado. Passamos a adotar a máscara, que até hoje é um acessório indispensável. Nos adaptamos para o trabalho e os estudos de forma remota. Nossos governantes precisaram entender e desenvolver protocolos para preservar a vida de todos os cidadãos. No Rio Grande do Sul já estamos vivendo a terceira onda, sempre com elevado número de contaminação. E sabe o pior de tudo isso? Além de fazer com que a nossa vida tenha mudado 360 graus neste último ano, ele tira vidas. Vidas de tantas pessoas queridas por nós!

Embora a maior parte dos casos adquirem o vírus e nem sentem ou apresentam apenas sintomas leves, há aqueles que, infelizmente, precisam de internação hospitalar. E é nessas instituições que estão os profissionais da saúde, que traçam uma batalha diária pela recuperação dos pacientes. Eles merecem todo o nosso agradecimento! Hoje, um ano depois, cada um de nós tem uma experiência diferente relacionada a pandemia, seja de angustia, medo, perdas, crescimento, aprendizado ou superação. Mais do que nunca precisamos manter os cuidados, o amor pelo próximo, para logo mais estarmos juntos, abraçados e seguros.

RELATOS SOBRE UM ANO DE PANDEMIA

  • ALINE LOVERA

Aline Lovera, 36 anos, atua como fisioterapeuta no Complexo Hospitalar da Unimed. Em março de 2020, a instituição contava com duas UTIs e os profissionais desempenhavam uma rotina normal. Conforme Aline, o período inicial era visto com esperança pelos colegas, mas com o passar dos meses o trabalho foi ficando cada vez mais intenso e desafiador. Atualmente, o hospital está operando com oito UTIs, onde são atendidos cerca de 80 pacientes extremamente graves. “É por eles que a gente está aí, é por eles que eu continuo. Mas está cada vez mais difícil acreditar que tudo isso vai passar”, relata.

Conforme a fisioterapeuta, a sua vida pessoal sofreu mudanças, sendo que atualmente ela não consegue manter rotina de exercícios e nem alimentação regrada. “Ultimamente a gente está comendo no horário que dá e o que dá”, conta Aline. A rotina tem causado dificuldade para dormir e sensação de exaustão física e mental. Além disso, as pessoas tem medo de se contaminar com os profissionais da saúde, o que acaba deixando-os ainda mais tristes. Por fim, Aline espera que a sociedade se coloque no lugar de quem está na linha de frente e não aglomere. “Eu só tenho uma frase para terminar: ‘No momento está tudo fechado, menos o céu’. Eu peço para todos orarem porque é de lá que está vindo a força para todo mundo continuar”, finaliza.

 

  • CARLOS ROBERTO GEORGE

Carlos Roberto George, 61 anos, enfrentou a Covid-19 com muita força e coragem. No início de novembro de 2020 ele foi positivado e precisou ser internado, inclusive em leito de UTI. Ao todo, foram 30 dias de hospitalização. Ele comenta que, embora o isolamento social seja ruim, todos devem se cuidar. “Quem passa e tem os problemas como o meu caso, que são muito graves, a Covid vem para aniquilar. Eu tenho que agradecer a Deus e as pessoas que oraram por mim para estar podendo falar aqui agora”, finaliza. Carlos é filho da Edy Fetter George, que foi a primeira vítima do vírus em Farroupilha, no dia 09 de maio de 2020.

 

  • CAROLINE MORAES VIEZZER

Caroline Moraes Viezzer é médica intensivista da UTI Covid-19 e participa da coordenação das UTIs no Hospital Beneficente São Carlos (HBSC). Há um ano a médica atende diariamente pacientes com coronavírus. Ela recorda as incertezas frente àquela doença nova, onde ninguém sabia ao certo como lidar. Os profissionais de saúde tiveram que aprender a usar os equipamentos de proteção e como agir diante dos pacientes contaminados. “Um ano se passou e a gente não imaginava que a pandemia fosse ter a proporção e a duração que ela está tendo”, afirma.

Os profissionais adquiriram conhecimento, mas a médica ressalta que, mesmo com essa experiência, eles continuam, muitas vezes, perdendo a batalha para o vírus. Atualmente, a doença não gera quadros graves apenas em idosos ou pessoas com comorbidades, mas está atingindo jovens e adultos saudáveis, onde muitos acabam precisando de intubação.

O HBSC está operando com mais de 100% da ocupação, ou seja, acima da sua capacidade. Caroline reconhece que toda a equipe está sofrendo com esgotamento físico, mental e emocional.  “Repetidamente nós precisamos dar más notícias, nós vemos famílias que têm duas ou até três vítimas do vírus, presenciamos famílias chorando através dos vidros, se despedindo dos familiares, implorando por melhora, o que as vezes não acontece”, lembra. Por isso, a profissional solicita que todos se cuidem, se protejam, pois só assim se evita a contaminação e uma possível internação.

 

  • DANIELLE MARCOLLA

Danielle Marcolla é gerente de infraestrutura do Hospital Beneficente São Carlos (HBSC). Durante este ano de pandemia, a instituição criou novos leitos, adquiriu equipamentos, reforçou o número de respiradores, embora a esperança era de que não fosse necessário utilizar toda essa estrutura. “Achávamos que o pico da Covid já havia passado. Para nossa surpresa, aqui no hospital o pico está sendo neste momento, nestes últimos dois meses”, relata. Ela afirma que, se o hospital não tivesse reforçado o número de leitos, provavelmente agora estariam faltando vagas para atendimento.

Recentemente a profissional saiu do seu período do isolamento, pois foi infectada pelo coronavírus. Ela acredita que a vacina ajudou para o seu quadro leve, que foi apenas de sintomas gripais. Para Danielle, o psicológico foi muito mais afetado do que a parte física, principalmente em razão do isolamento social durante os 15 dias. Ela torce que todos consigam se vacinar, para que as pessoas não sofram como está ocorrendo atualmente no hospital.

 

  • FLAVIO NOAL

Flavio Noal tem 42 anos e é morador da Vila Jansen, local da primeira confirmação da Covid-19 em Farroupilha. Ele lembra que a sensação vivenciada pela comunidade foi horrível, pois houve o isolamento da localidade por 15 dias e a desinfecção das ruas. Há 20 dias atrás, Flavio, a esposa, as duas filhas e a mãe foram contaminados pelo vírus, onde todos apresentaram sintomas leves.

Infelizmente, a pandemia deixou marcas muito dolorosas na família. Em dezembro do ano passado, complicações da Covid-19 vitimaram o seu irmão Rogério, de 47 anos. A despedida foi ainda mais difícil, pois não pôde ser realizado o velório. “É uma perda irreparável. Deixou filhos, esposa, uma vida pela frente, sonhos que deixaram de serem realizados”, comenta emocionado. Para encerrar, Flavio pede para todos se cuidarem e procurarem o médico em caso de sintomas, pois quando há uma perda na família, isso ficará marcado para sempre.

 

  • JOANA SANCHOTENE MOSCHEN

Joana Sanchotene Moschen é médica infectologista há quatro anos no Hospital Beneficente São Carlos (HBSC) e na Prefeitura de Caxias do Sul. Ela explica que, ainda no início do ano passado, a instituição reforçou toda a sua estrutura de saúde. Atualmente, o hospital está com mais de 100% de ocupação. Isso significa que há pacientes utilizando respiradores em outras alas do hospital, fora de um leito de UTI. Joana lembra que, infelizmente, neste um ano de pandemia, Farroupilha perdeu dezenas de vidas, muitas delas de jovens que tinham muito pela frente.

Para a médica, os últimos meses foram rodeados de medo, seja da contaminação, de ir a óbito ou de levar o vírus para um familiar. Neste momento, o que os profissionais da saúde pedem é apoio. “Estamos fazendo tudo para que todos que tenham a infelicidade de adquirir este vírus tenham um bom desfecho”, ressalta. Apoiar o setor da saúde significa se cuidar, higienizar as mãos, usar a máscara e, acima de tudo, não aglomerar.

 

  • MARIA HELENA BRISTOT ZUCCO

Maria Helena Bristot Zucco conta que nos primeiros meses de 2020, ao ver notícias na mídia sobre o coronavírus, acreditava que isto nunca iria chegar a Farroupilha. Infelizmente o vírus chegou e contaminou milhares no ano passado. Em 19 de dezembro, ela começou a sentir os primeiros sintomas, realizou o teste, que confirmou Covid-19. “Aí eu vi realmente o quanto esse vírus era agressivo”, afirma. Por ter buscado tratamento imediato, ela conseguiu se tratar em casa com remédios prescritos pelo médico.

O ano de 2021 chegou, mas o vírus não ficou pra trás. Pelo contrário, nos primeiros meses deste ano houve aumento de casos e hospitalizações. Em 20 de fevereiro, a família Zucco recebeu a triste notícia de que a avó Ires havia testado positivo para coronavírus. Foi iniciado tratamento, mas em alguns dias ela precisou de internação hospitalar. Infelizmente o seu quadro foi piorando, até necessitar de intubação. Nona Ires, como era chamada carinhosamente, não resistiu as complicações e foi a óbito no dia 02 de março. “Varias pessoas não estão dando tanta importância para isto, assim como lá no início eu não dava. Mas no momento que a gente perde pessoas importantes, começamos a refletir mais. Fique em casa e se cuidem”, pede Maria.

 

  • GUILHERME SBARDELOTTO DIAS

Guilherme Sbardelotto Dias, 23 anos, afirma que o primeiro impacto que a Covid-19 gerou foi ainda em março de 2020, quando a sua empresa familiar teve que parar temporariamente. Após uma semana, foi possível retornar ao trabalho, seguindo as restrições daquele momento. Em junho do ano passado, sua mãe começou a sentir alguns sintomas de resfriado, que normalmente são comuns em nosso inverno. Com o passar dos dias, ela apresentou dor de cabeça, dor nas castas e perda do paladar. Com isso, eles buscaram atendimento, onde foi realizado o teste que deu positivo para Covid-19. Imediatamente todos os família foram afastados do trabalho e iniciaram o isolamento domiciliar.

Após 10 dias de quarentena, a mãe retornou para o médico, onde a avaliação mostrou estar bem de saúde. Neste momento, os familiares realizaram o teste, constatando que o Guilherme já havia pego o coronavírus. Ele imagina ter estado com o vírus em uma semana onde sentiu algumas alterações, como uma noite mal dormida e uma febre rápida. O teste da irmã também apontou que ela já havia passado pela Covid-19, tendo sentido sintomas bem leves de resfriado. Já o pai realizou a testagem duas vezes e ambas deras negativo. Mesmo após a infecção, todos seguem mantendo os cuidados com distanciamento, uso da máscara e higienização.

 

  • ROBERTA MARIN BRUNETTA

Roberta Marin Brunetta é enfermeira e atua na coordenação da equipe de enfermagem das UTIs. Desde o primeiro caso confirmado, a vida profissional sofreu muitas alterações, como por exemplo no uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Os profissionais utilizam as máscaras N95 e face shields, além dos aventais para atendimento dos pacientes com coronavírus. “Eu lembro como se fosse hoje, lá no primeiro atendimento, todos estavam assustados. Uma equipe inteira aguardando receber um paciente, com angustia. Hoje a gente lida com o manuseio dos EPIs com agilidade e com habilidade”, recorda.

Segundo a enfermeira, a vida mudou muito a partir do momento em que as equipes começaram a ver habitualmente os familiares se despedindo dos entes queridos por meio de uma parede de vidro. “A gente sai de um plantão com o coração estraçalhado quando isso acontece”, fala emocionada. Ela afirma que todos os pacientes que precisam da UTI estão chegando entubados, precisando de auxilio do respirador para sobreviver. O que traz felicidade para as equipes são os pacientes que saem da UTI ou que não precisam ser entubados. A profissional solicita que todos se cuidem, pois ninguém sabe quando e como isso vai terminar.

 

  • CAMILA MUGNOL

Camila Mugnol, 20 anos, testou positivo para a Covid-19 há cerca de 15 dias. Ela teve apenas sintomas leves durante o isolamento, embora ainda siga com a falta do olfato. Muitas pessoas que adquirem o vírus e cumprem a quarentena acabam ficando fragilizadas psicologicamente. Camila relata que era angustiante não saber o que poderia acontecer no dia de amanhã. Também é preciso lidar com o medo de estar transmitindo o vírus para os familiares. “Felizmente, até agora, ninguém mais apresentou sintomas”, diz aliviada.

Para se sentir um pouco mais próxima de sua família, ela fazia as refeições na sacada, com a vidraça fechada (como mostra a foto). Além disso, o local onde ela mora tem bastante espaço ao ar livre, que lhe proporcionou viver os dias de confinamento com mais liberdade. Ela lembra que, apesar de todos estarem cansados, é preciso manter o máximo de cuidados.