Aqui é Meu Lar de 2021 encerra neste sábado com entrevista à família Crocoli em Caravaggio

A Rádio Miriam Caravaggio apresenta neste sábado, 18, a última entrevista dentro do projeto “Aqui é Meu Lar”. Este ano o foco foi o cooperativismo, com o tema, Cooperativados: uma relação mútua. O programa abordou a trajetória das famílias associadas às mais diversas cooperativas ligadas direta ou indiretamente aos agricultores. As entrevistas ressaltaram a importância do sistema para o crescimento e desenvolvimento da agricultura no município de Farroupilha, na caminhada das famílias, que tem no cooperativismo uma forma de produzir com segurança e rentabilidade. Também, o processo de compra da produção, assim como na assistência técnica, qualificação, financiamentos para a estrutura das propriedades, aquisição de insumos, sementes e equipamentos. O projeto iniciou no dia 02 de outubro e encerra neste sábado, dia 18 de dezembro, com a veiculação às 10h da manhã.

O último programa deste ano é com a família Crocoli, em Caravaggio (1º Distrito de Farroupilha). Associada à Cooperativa Vitivinícola Forqueta Ltda, a fonte de renda vem da produção de uva (Niágara, Bordô e Lorena) em uma área de seis hectares que rende anualmente uma média de 160 toneladas e o cultivo de tomate em estufa, com aproximadamente um hectare o volume chega  a cerca de 100 toneladas. O tomate já foi o carro-chefe da produção, inclusive, chegou a render dinheiro para que (Moisés), um dos filhos, o único que ficou trabalhando com os pais, pudesse construir sua casa em 2016. Uma pequena agroindústria de lacticínio também foi responsável pela renda da família, mas hoje está desativada.

Odir Crocoli tem 72 anos e nasceu quando a propriedade onde mora pertencia à São Marcos, pois somente a partir de 1969 passou a fazer parte da Paróquia de Caravaggio. Ele sempre teve uma ligação próxima dos trabalhos junto às duas comunidades. Seu pai, José Crocoli, era de Monte Bérico e a mãe Otília Brunetta Crocoli, nasceu na região de Caravaggio. Ele conta que seu pai ficou viúvo muito cedo, quando foi morar em São Tiago de Mato Perso, mas sua esposa, Inês Schiochet, faleceu quando nasceu o terceiro filho, impondo a ele a criação das três crianças. Inês era professora em Otávio Rocha. Otília, porém, mãe de Odir, havia ficado viúva de Raimundo Grando, que foi convocado para o quartel depois de casado, mas morreu em um acidente enquanto prestava o Serviço Militar. O trauma levou ela, grávida, a perder o filho que estava para nascer do casamento com o Raimundo.

Diante da triste realidade imposta pelo destino e viúva após sete meses de casada, ela decidiu morar em um Convento em Caravaggio, mas por já ter contraído o Sacramento do Matrimônio e por ser mãe, embora perdera o filho, ela não se enquadrava nas regras da Congregação e não poderia vir a se tornar uma religiosa. Por isso, sua função seria trabalhar na cozinha, por esse motivo, a família solicitou seu retorno para casa. O pai de Odir, viúvo e com três crianças para educar, retornou para Monte Bérico onde sua família ajudou na criação. José Crocoli conhecia bem o padre Theodoro Portolan, o qual ajudava em várias frentes. O sacerdote conhecia a realidade dos dois (José e Otília) e os aproximou, assim, José Crocoli a Otília Brunetta se casaram formando uma nova família.

Odir é o primogênito do casal e conta que quando criança teve problemas de saúde, nasceu com quase seis quilos e se tornou obeso já com seis anos de idade. Por ter tido excesso de crescimento, acabou tendo seu sistema nervoso afetado e por consequência um desequilíbrio nos movimentos de seus membros. Sua situação física era comprometedora, mas talvez menos traumática do que enfrentar o sofrimento proporcionado pelas pessoas que o julgavam como “coitado”. Odir disse que hoje entende o que é bulling, pois da forma como era tratado acredita que nos tempos atuais se enquadraria em atos dessa natureza.

Para curar sua deficiência ele conta que foi submetido a 15 dias de tratamentos em Caxias do Sul, momento em que seu pai e a mãe prometeram que caso melhorasse, iriam fazer trabalhos comunitários ajudando na igreja, clubes e comunidades até que tivessem forças. A mãe era cozinheira e o pai assador de churrasco e cantava nas missas, ou seja, cada um com suas aptidões se envolveram nas comunidades com o serviço voluntário, inclusive tendo participação direta na construção do Santuário de Caravaggio. Depois de curado ele chegou a servir o quartel, um milagre para quem não conseguia sequer segurar um copo d’água nas mãos e fazer suas refeições com autonomia.

Todavia, o milagre aconteceu em uma das viagens para Caxias onde foi fazer as aplicações nos músculos, ainda na metade do tratamento, retornando para casa, tudo aconteceu. Com dificuldades para se movimentar, seu pai o conduzia pela mão, momento em que ele pediu para que o pai largasse a sua mão, surpresa! saiu caminhando sem dificuldades e inclusive dando cambalhotas. Após esse acontecimento sua melhora foi intensa e não precisou mais retornar para completar o tratamento. “Então o motivo da família ajudar e ser solidária, não é porque sou bom não, é porque eu tenho uma dívida para pagar”, brinca. Para Odir, foi Nossa Senhora da Caravaggio quem o curou. “O sofrimento nem sempre é tempo perdido, muitas vezes é uma faculdade de lágrimas e de sofrimento, mas também ele te modela, te abre horizontes”, acredita.

Odir é casado com Araci Basso Crocoli, natural de Mato Perso, município de Flores da Cunha, mas que aos sete anos seus pais se mudaram para Monte Bérico (2º Distrito de Farroupilha), onde ela permaneceu até casar. Eles se conheceram em Caravaggio durante as missas e festas na comunidade. Araci conta que seu maior tempo de atividade nos parreirais foi quando era solteira, depois de casada com a chegada dos filhos teve que ficar em casa cuidando deles, enquanto o marido se envolvia com a plantação. Os filhos foram crescendo e começaram ir para à escola e com isso aumentou ainda mais a necessidade de dona Araci ficar em casa, pois tinha que prepará-los para irem ao colégio. Na época ela ainda cuidava das vacas leiteiras de onde saia alguma renda para ajudar nas despesas da família.

Araci e Odir tem cinco filhos, Daniel (professor), Paula (professora), Isabel (Engenheira Química), Carla (professora e secretária de escola), Moisés, o Caçula, que ficou trabalhando com os pais na agricultura. Todos os cinco filhos cursaram faculdade. Eles deram para o casal sete netos, o mais novo é o Mathias que nasceu no dia 15 de dezembro, com 3,5 kg, filho de Carla. Com os filhos encaminhados e o casal já com dificuldades para dar seguimento à propriedade, a decisão foi providenciar as partilhas em vida e cada um ficou com sua porção. Odir conta que dentro do possível vai ajudando Moisés nas parreiras e na plantação de tomate, pois com oito parafusos na coluna, seus movimentos são limitados. Ele comemora a conquista de ter conseguido dar aos filhos faculdade e hoje vê-los bem. Claro, para chegar a isso ele conta que não foi fácil, mas graças a uma pequena agroindústria de lácteos foi possível investir a renda nos estudos dos filhos.

O trabalho na agricultura para Odir tem suas dádivas e glórias, mas também não dá para ignorar o fato da carga horária e o acúmulo de funções que o agricultor desenvolve para produzir e sustentar a família. “Hoje muitas famílias tem semiescravidão em casa, são os números um da família, os filhos mais novos, os recém casados, esses tem que fazer tudo, ir para os mercados, bancos, aplicar defensivos, pulverizar, lavrar e colher”, preocupa-se. Para ele a contratação de mão-de-obra é muito burocrática. “Por isso que é uma questão para que os meios de comunicação, igreja, políticos e entidades como um todo, deveriam fazer uma reflexão, pequena propriedade e a mini família, não pode continuar com esse modelo sob pena de nós vermos só taperas implantadas. Hoje a pequena propriedade tem que ter um modelo de pequena propriedade, pequena família, mas um modelo de miniempresa para que possamos contratar mão-de-obra qualificada. Assusta ouvir as palavras aí, porque os direitos trabalhistas são terríveis, nós estamos correndo dois riscos: não sei quais dos dois é pior, se é sacrificar os filhos, ou, se contratar mão-de-obra sem documentação e com isso, vir a pagar indenizações que inviabilizem as propriedades”, alerta.

COOPERATIVISMO

A família Crocoli é associada à Cooperativa Vitivinícola Forqueta Ltda desde o início das atividades, fundada em 1929. Em 1931 foi fundada a Cooperativa Aliança e na frente da casa de seu avô havia um posto da União Brasileira de Vinhos, uma empresa privada pertencente a um proprietário de Caxias do Sul. Naquela época como o transporte era com tração animal, as cooperativas ou as empresas vinícolas instalavam postos próximos aos produtores para receber a safra. A unidade localizava-se atrás do Santuário, na baixada, mas o proprietário desistiu de produzir vinhos naquele local.

Seu pai era sócio da Aliança, mas tentou convencer as 25 famílias que residiam na comunidade para que se associassem à Aliança, mas havia um vizinho que era sócio da Forquetense, foi então que em solidariedade a esse morador, todos deixaram a Aliança e migraram para a cooperativa localizada em Forqueta. Odir chegou mais tarde e depois compôs a diretoria a qual contabiliza alegrias, mas também fracassos e mágoas devido as atribuições da função. Na época teve que utilizar muita estratégia pessoal e contar com o apoio da família para conseguiu se recuperar. No entanto, celebra o legado que ficou dessa experiência e hoje entende que para ser um cooperado é precisa estar preparado e não ser sócio só para levar vantagem.

“Cooperar? é cooperar numa situação quando está médio, ou quando está ruim também, só que nesses anos está ruim para todos. Eu fui para a cooperativa em função do endividamento da cooperativa e o endividamento das cooperativas tem uma origem, foi lá no final dos anos 70, com a inflação acima de 80%, as cooperativas pagavam um preço pela uva, acreditando em determinado percentual da inflação, mas ficou acima do calculado e isso levou à falência muitos negócios. Neste caso quem reajustou a tabela não conseguiu pagar e teve muitas dificuldades e se descapitalizou”, resume. Para ele com o enfraquecimento das cooperativas surgiram várias pequenas cantinas que passaram a concorrer no mercado vinícola.

Confira as fotos da propriedade da família Crocoli:

Odir Crocoli faz o convite para acompanhar o programa:

 

PROGRAMA COMPLETO

PATROCINADORES

LNF Latino Americana – Atua nas indústrias de álcool de combustível e potável, açúcar, cerveja, sucos e nutrição através da Kera. Telefone (54) 2521-3124.

Livraria e Papelaria Paraná – Livros, brinquedos, material de escritório e tudo em material escolar. Rua Júlio de Castilhos, 734, em Farroupilha. Telefone 3261-3667.

Coopervil – Completa linha de insumos e defensivos agrícolas para a agricultura com orientação técnica. Rua Egídio Zamboni, 277. Telefone 3268-9373.

Costi Comércio de Tintas – A casa mais completa em tintas da cidade de Farroupilha. Na Júlio de Castilhos, 593. Telefone 3268-3681.

Cooperativa Nova Aliança – Da terra com o amor da nossa gente.

Foto: Gleici Trois