Ao fugir da Itália com medo da Guerra e da fome a família Vieccelli constrói aos pés de Nossa Senhora de Caravaggio uma trajetória com mais de 110 anos
Essa edição do programa Aqui é Meu Lar, veiculado na Rádio Miriam Caravaggio 95,7 FM, conta parte da história da família Vieccelli, conversando com Egídio Vieccelli, 93 anos de idade e morador em Caravaggio. Ele ainda guarda em sua memória parte da epopeia de uma família, que foge de sua terra natal, Itália, por causa da guerra e da fome. Lembra que seus antepassados construíram uma trajetória aos pés de Nossa Senhora do Caravaggio, em Farroupilha. Com mais de nove décadas de existência, seu Egídio, recorda que a família do seu pai, veio da Itália em 1914, quando a primeira guerra começou no velho mundo.
No Brasil, na região de Caravaggio, já havia os primeiros descendentes de Vieccelli, que chegaram antes. O avô de Egídio chegou e se estabeleceu aqui. O pai era o Pietro Sebastian Vieccelli e a mãe era da família Biazon, que também residia em Caravaggio, mas que chegaram na primeira leva. Egídio disse que seu avô veio para o Brasil e arrumou terra e depois voltou para a Itália buscar a família. Eles chegaram ao Brasil pelo Rio de Janeiro, depois trocaram de navio e navegaram até Porto Alegre. Seu pai tinha nove anos na época e a família era formada por nove irmãos. O último nasceu no Brasil.
O avô de Egídio era Victor Vieccelli. Os Vieccelli se arranjaram próximo a Caravaggio, no local conhecido por Picada Torta. Mais tarde a família se deslocou para Videira em Santa Catarina, mas Pietro não foi junto e continuou morando em Caravaggio na Picada Torta, pois tinha alguma dificuldade de se locomover em função de um problema físico em uma das pernas. Mesmo assim se empregou em um curtume que havia no local. Mais tarde começou trabalhar como carreteiro em um armazém na Busa. Depois de um tempo foi trabalhar em uma casa de negócios do Venzon, até se casar, foi quando comprou uma casa, é a mesma casa de pedra, que hoje está em frente ao Hotel Bentevi, cuja estrutura ainda existe e foi lá dentro que nasceram seus oito irmãos. Quatro ainda estão vivos e residem em Caravaggio.
“Meu pai contava que vieram em 1914, mas já era um tempo diferente, lá na Itália estava faltando comida para eles, faltava comida e trabalho”, conta. A região na pátria mãe era Fonzaso, região do Vêneto, na Província de Belluno, no nordeste da Itália. Pelo que relata Egídio, dá pra entender que algumas famílias já se conheciam desde a Itália, e que se encontraram em Caravaggio. Ele se refere às famílias Zucco, Nicoletto e Passa.
Egídio conta ainda que quando era jovem trabalhou na Colônia, mas com a terra alugada, onde se pagava a terça parte da produção ao proprietário. Nesta época chegou em Caravaggio, o padre Teodoro, que decidiu fazer a avenida. Egídio então com 13 anos de idade foi trabalhar na obra e ajudava transportar pedras com carro puxado por vacas, o local que ele recorda é na parte em frente ao Santuário. Ele conta que quando o padre Teodoro chegou em Caravaggio, pensou também em construir o Santuário e foi falar com o bispo Dom José Baréa, mas foi chamado de “louco” porque não tinha dinheiro para a obra. Mas o padre justificou que não era para fazer tudo de uma única vez, mas aos poucos. Neste período surgiu o arquiteto Betani, que veio de Guaporé e a obra iniciou aos poucos, com uma máquina para cortar pedras. A obra demorou 18 anos para ser concluída.
O pai de Egídio também chegou a ser sapateiro e foi proprietário de uma fábrica de objetos para animais, além de carreta e comércio, quando casou, tinha comércio. Egídio estudou até o quinto ano quando completou 12 anos de idade, parou de ir à escola. Ele chegou a conhecer alguns dos os tios, o Angelino, que era um dos mais velhos e o padre João, que vinha visitar seu pai em Caravaggio. Ele foi pároco por mais de 20 anos em São Joaquim. Além dos Vieccelli, Egídio nomeia algumas famílias tradicionais que se enraizaram em Caravaggio, Bruneta, Crócoli, Pasa, Munhol, Zucco, Cambruci, Denardi, Demomi e Balbinot.
Recorda que antes da construção do Santuário Antigo, teve o Capitel, quando no mês de maio a comunidade rezava o terço, todas às noites. Naquela época Caravaggio ainda não tinha a fama que tem hoje, mas já se falava da Nossa Senhora do Caravaggio, porém menos que atualmente. “Vinha muita gente de longe para Caravaggio, faziam uma festa e muitos ficavam ali na casa do meu pai. Aquela casa velha, na Avenida. Agente botava pasto em cima do sótão para o pessoal dormir e descansar. E vinha, olha, para a festa de fevereiro também”, recorda. Seu Egídio conta ainda que os fiéis vinham de Mato Perso e arredores, para a festa de fevereiro. Ele se refere a Romaria Votiva, que acontece desde 1899.
Em 1945, começa a construção do santuário antigo, pois segundo Vieccelli, ali, era tudo rocha e só havia uma moradia, onde hoje tem Nossa Senhora. Possivelmente tenha sido moradia dos Brunetta e depois foi dos Bertuol, que moravam ali, mas posteriormente foi transferida para mais abaixo, onde agora tem a Capela das Velas. As pedras eram transportadas da Busa com caminhão. O seu pai comprou um caminhão velho para transportar essas pedras, junto com Antônio Boneto, que dividiram o valor do caminhão.
As pedras tiveram que ser detonadas. Então veio para ajudar na obra um Batalhão do Exército de Bento Gonçalves que detonou as rochas, enquanto os construtores trabalhavam à noite inteira. Depois chegaram o padre Romero e Dom Benedito Zorzi, que tirou o trabalho da noite, pois já estava ficando uma obra com risco aos trabalhadores. Depois de concluído o Santuário, Aurora Mugnol, casada com Luiz Verona e sua irmã Maria, arrumavam e cuidavam do santuário, fizeram isso por muitos anos. A Maria era solteira e passava nas famílias em toda a paróquia para recolher ofertas. Egídio suspeita que elas trabalharam entre 10 a 15 anos nessa função no Santuário.
Depois vem a construção do Santuário novo, isso obrigou a abrir uma Olaria para fabricar os tijolos, que eram feitos por mulas que movimentavam a máquina para amassar o barro. Foi adquirido um motor oferecido por Bento Gonçalves, que abastecido à óleo para fazer os tijolos. O barro e a terra eram retirados do campo de futebol, que era cerca de um metro mais alto, onde hoje é o campo do Saturno. O concreto era feito tudo manual, tudo na pá, não havia máquinas. Armindo Balbinotti era um dos ajudantes e tinha que jogar os tijolos para cima da construção. Para facilitar o trabalho, mais adiante foi instalado um molinete. Com a chegada da o trabalho ficou mais leve. Contudo, havia luz, mas era gerada de uma pequena usina construída na Busa. Segundo Egídio, foram alguns milhares de tijolos, tudo feito em Caravaggio e no Guedini, na comunidade de São José.
Muito longe de lembrar com detalhes, ele lembra levemente que na inauguração vieram autoridades religiosas de Porto Alegre. “Depois da inauguração, até nós cantemos na missa da inauguração. Era o pai que dirigia o coral Caravaggio, a missa foi campal”, lembra. Para Egídio foi com o padre Teodoro, que Caravaggio tomou uma proporção maior, com a determinação a realização de mais missas no santuário. O padre Romero já havia começado todos os dias 26 de cada mês rezar missa no Santuário. Ele rezava das 6h30, 8h, 10h e 11h. Nas festas, as missas eram rezadas o dia inteiro. O padre Romero ficou quase 20 anos trabalhando em Caravaggio e saiu para trabalhar em Galópolis, Caxias do Sul.
Egídio trabalhou 48 anos no Santuário com Carteira assinada, em atividades variadas, como no restaurante e no bar. Foi uma espécie de zelador do Santuário, pois cuidava de toda a estrutura. O trabalho era dividido com outros funcionários, mas havia também voluntários, que se dividiam em equipes de quatro para trabalhar aos domingos, nas festas e romarias. Egídio deixa o Santuário no dia 15 de março de 2020, quando houve as restrições de eventos e atividades externas por causa da pandemia do Covid-19. Egídio foi casado durante 55 anos com Marta Vieccelli (in memoriam) com tiveram quatro filhos, Miriam, Élcio, César e Jacir.
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