Na arte de costurar e a união de duas famílias que deixam a miséria da Itália, nasce a Biamar como um símbolo da prosperidade na terra da Cucagna
A Rádio Miriam Caravaggio 95,7 FM, com o propósito de contar parte da imigração italiana, tema do projeto Aqui é Meu Lar, desse ano, foi em busca de depoimentos de pessoas que conheceram ou viveram momentos da vida com seus antecendentes. Conversando com Devilda Marmentini Biazoli, é possível entender como os imigrante construiram sua história. No caso, a família de Devilda, a partir de seus avós que ao chegarem no Brasil e se estabeleceram em Farroupilha. Diz ela que conhece parte da história de seu avô materno, Casimiro Tumelero, que veio de Vicenza, na Itália, com 19 anos de idade. Ele contava que no seu país, tinha uma vida muito difícil e por algum tempo teve que trabalhar na Alemanha como pedreiro, para sobreviver.
O que ela ouvia falar é que a família de seu avô Casimiro, era formada por onze irmãos e até chegou a conhecer o local onde ele morava, na Itália. Se tratava de um lugar muito difícil para viver. “Eu conheço, tive a felicidade de ir lá na casa onde meu avô nasceu, onde ele morou. Eles moravam no alto do morro, não tem explicação, não chega um ônibus, é difícil, tem que chegar só com carro pequeno, porque é um morro muito longe de Vicenza, na estação central até na casa onde ele morava tem uns trinta e três quilômetros”, calcula.
Uma outra passagem é que seu avô perdeu um irmão na guerra. “O meu avô inclusive tinha um lábio aberto porque levou um tiro, mas conseguiu sobreviver. Ele perdeu a mãe por causa do sofrimento de ver os filhos na guerra, eram quatro que foram convocados. Ela sofreu muito que acabou falecendo”, conta. Foi diante de todo esse sofrimentos seu bisavô resolveu vir para o Brasil com a família, já que ele tinha perdido a esposa, veio com os filhos e uma nora. Eles começaram a vida lá na linha 40 em Pinto Bandeira, onde já residia um primo, que veio antes para o Brasil. Ele foi morar junto com o primo até conseguir um lote de terra, na linha República, onde ainda residem alguns Tumeleros.
Alguns dos Tumeleros se estabeleceram naquela região pertencente a Linha Jacinto, nas capelas de Santo André e Santo Antônio e Pinto Bandeira, outros foram para Santa Cruz. Três da mesma família tinha o conhecimento de carpintaria e pedreiro, porém, um deles, o João Tumelero, conforme contava seu avô, disse que enxada não era pra ele e que iria procurar outras terras. Partiu ele e uma irmã, a única mulher da família para Sananduva. Na nova terra João conseguiu trabalho e conheceu sua esposa, que tinha uma pequena serraria, existiam muitos pinheiros e o negócio prosperou. O tempo passou e João se transformou em um dos maiores empresários do Rio Grande do Sul, com a rede “Loja Tumelero”, no ramo de materiais de construção. “O tio João parece que tinha dezesseis ou dezoito filhos, era uma família enorme”, conta.
Devilda nasceu em Santo André, filha de Jardir Domingos René Marmentini, que vieram para o Brasil, em 1875, com a primeira leva em Nova Milano. “Eu não tenho muita história dos Marmentini, mas eu tenho uma história legal da minha avó materna, que é Bortolan. Eu não cheguei a conhecer meu avô Marmentini porque ele faleceu muito jovem. Ele devia ter 55 anos quando faleceu. Minha avó paterna é Marmentini”, explica. São duas famílias que se unem, tem os filhos que nasceram e cresceram naquela região da Linha Jacinto. Tumelero e Marmentini. “É por isso que eu digo, do meu avô materno eu ouvia, ele sempre contava, mas ele era bem reservado, porque ele dizia para nós, eu falo tudo italiano, ele dizia que eles sofriam muito por causa do idioma aqui no Brasil”, revela.
Ela disse que seu avô contava que como onde eles moravam era um lugar muito alto, passavam muito frio no inverno. Quando o inverno chegava eles tinham que ir para o estábulo, para se aquecer junto com as vacas. Era tanto sofrimento que ele preferia não lembrar. A guerra com a perda da mãe e do irmão eram lembranças doloridas. Contavam história que em meio as batalhas tinha que entrar nos buracos e se alimentar de raízes. “Era muito difícil, tanto que ele teve um convite para voltar e passear na Itália e ele disse não, eu não vou mais voltar para Itália. Ele teria condições para ir, ganhava a passagem, mas não foi”, conta.
Devilda conta que foi a primeira neta dele a conhecer a casa, na Itália, mas ele já não vivia mais lá porque estava no Brasil e faleceu em 1985. Ele chegou no Brasil em 1919. O bisavô veio com a família, mas deixou um filho na Itália. Era uma família muito pequena, esse filho casou e teve três filhos. A filha mais nova dele faleceu o ano passado com 104 anos.“Eu conheci ela, fui lá visitar três vezes. Ela seria a prima irmã da minha mãe. Lá a casa do meu avô ainda existe e eles consideram casa de campanha, porque no verão como moram em Cremona e é muito quente, eles vão para lá passar férias, lá no alto”, conta.
Essa família é Tumelero conforme Devilda os Marmentini se conheceram aqui. A avó materna era da família do Bortolanza e se casou com Marmentini. Ela teve quatorze filhos e foi uma mulher muito guerreira. “Ela passou para nós, coisas boa, por exemplo eu aprendi a trabalhar numa máquina de costura com ela. Eu aprendi fazer um crochê com ela. Então eu tenho muitas lembranças da minha avó. “Se hoje eu sou aquela pessoa que faz, que trabalha, é graças a ela. A nona me ensinou e como a gente morava muito próximo dela, os pais iam trabalhar juntos”, lembra. Devilda conta ainda que seu pai era agricultor e muito trabalhador, quando ela tinha quatro anos de idade, ele resolveu morar em Bento Gonçalves, onde também foi seu irmão. Lá seu pai aprendeu a profissão de pedreiro, mas não deu certo, voltou para a colônia. Negociou o terreno em Bento por uma terra e foi morar na colônia, onde criou seus filhos, próximo de Santo Antônio. Seu pai seguiu trabalhando na roça, criava gado, cultivava parreiras, era um empreendedor nato, que só sabia trabalhar e educava seus filhos nesse costume.
“A mãe era uma guerreira, levantava quatro horas da manhã para trabalhar na lida da casa e depois ia para a roça. Como de regra, ela era aquela mulher que fazia de tudo um pouco. Então a gente foi criada assim. A minha mãe é Tumelero e o pai é Marmentini, Tumeleiro com Marmentini”, explica. Devilda é casada com um Biazoli e conta que manteve o nome de Marmentini, quando casou era obrigado ter o nome do esposo. No entanto, podia tirar o nome da família, mas ela não quis tirar. Ela diz que tem orgulho da família Marmentini do pai e Tumelero de sua mãe.
“Eu casei e morei junto com a minha sogra dois anos, era difícil ser agricultor, eu era uma sonhadora e trabalhar lá acho que eu não iria ter muita chance na vida”, avalia. Delvina e seu marido, vão morar na cidade e ele foi para estrada como caminhoneiro, ela começa a vida na cidade, desempregada, mas vai à luta, não ficou em casa. Como já sabia costurar, ofício que aprendeu por meio de um curso de corte e costura oferecido pela dona Maria Mandela, na Janssen, foi beneficiada com esse conhecimento para ir ao trabalho. Ela valorizou muito esse curso, pois conta que fazia um trecho longo da estrada na Jansen, a pé ou a cavalo para aprender a costura. Mas tem orgulho em dizer que sua primeira professora foi a nona que ensinou a profissão. Recorda que foi importante quando foi morar na cidade para encontrar trabalho.
Devilda lembra que quando foi morar na cidade, Farroupilha, chegou com um emprego garantido, porém, quando foi acertar o contrato com o empregador, recebeu a notícia que não havia mais o emprego. “Ela me disse não tem trabalho. Tu imagina o desespero. Eu tinha uma criança de seis meses. Eu vou dizer para vocês, se eu olhar aqui, vão ver o nosso lado do Caravaggio. Eu peguei aquela criança eu fui a Caravaggio, me ajoelhei na frente da santinha e disse para ela, eu não quero nada. Só quero saúde e trabalho, para mim poder tocar a minha vida, porque eu não tenho nada. E eu vou dizer para vocês…”, silencia.
Ela conta que tem uma segunda família na cidade, que ajudou muito naquela época, pois quando chegou não tinha nem crédito para um aluguel. “Não tinha porque eu era forasteira”, brinca. Ela se refere a família do senhor Dolfi Dalsóchio, que cedeu uma das duas casinhas que havia construído para alugar. “Gente de Deus, eu fico assim emocionada só em falar o que essa família me ajudou. A dona Neli, ela começou a dizer, chegou uma costureira aqui no bairro, ela sabe trabalhar, vamos levar serviço”, lembra.
Recorda que o trabalho começou a surgir, mas em meio a isso, também costurou sapato e bordou, até conseguir renda suficiente para o sustento da família. “Nós não tinhamos nada, viemos com poucas coisas e nada mais. Fomos comprando as nossas coisinhas, e ele na estrada. Não tinha férias, era direto de segunda a segunda. Ele fazia o transporte só no Rio de Janeiro e Porto Alegre, com a Transportadora Wilson, saía daqui e descarregava no Rio, voltava a Porto Alegre e descarregava, carregava aqui em casa e voltava. Ele no volante e eu na máquina, a gente batalhava assim, foi uns quantos anos mais ou menos. Foi lá por 1976, vai fazer 50 anos agora no próximo ano”, lembra.
Nesta época Devilda relata que fazia seis meses que o irmão do seu marido havia falecido de acidente na estrada. “Quando nós chegamos aqui em Farroupilha, eu disse, meu Deus, o que vai ser de nós? O meu marido só me respondeu assim. Eu estou indo para estrada, mas ele tá me chamando. Eu tenho certeza que ele não vai deixar acontecer comigo o que aconteceu com ele. Graças a Deus, o Segundo trabalhou 15 anos na estrada direto. Ele levou tiro na antena do caminhão, levou pedras, levou de tudo, mas nunca aconteceu nada com ele”, agradece.
Devilda acredita que na sua família existe uma história de luta, pois desde criança viu seu avô trabalhar e contar as histórias da guerra. “Eu morei junto com ele e ouvia minha avó falar sobre o passado, que teve 14 filhos e ficou viúva. Ela sozinha conseguiu criar todos aqueles filhos. Todos se deram bem, não perdeu um. Aquele que ela perdeu, foi o primeiro filho, mas no exército lutando na guerra, porque estourou uma bomba quando bateu o coturno em uma bomba perdida no campo”, conta.
“A gente tem orgulho do que fez, só que não é só minha, aqui a gente é sócio, quem começou fui eu e o meu irmão. Até hoje nós estamos de mãos dadas um ao outro. Eu desde cedo mexi com retalhos e roupas. A minha história do primeiro corte é uma brincadeira, eu peguei em plena safra da uva o vestido da minha tia e cortei, só pelo prazer de cortar e botar na máquina à mão e costurar um vestido para a minha prima. E aí eu fui para embaixo do paredão, a minha tia só me olhou. O que vocês aprontaram?. Eu disse, olha que lindo que está o vestido. Ela só pegou uma varinha e passou em nós. Já era, não tinha mais o que fazer, mas foi uma arte bonita”, justifica.
Ouvindo essa história é possível entender que Devilda traz o dom de sua avó, já que sua mãe não era de lidar com costuras. A sua mãe era uma mulher que gostava da roça, lidar com os animais e a casa. “Só que minha avó era uma artista. Naquele tempo não existia roupa pronta, ela montava todas as roupas. Então ela ensinou para nós como se cortava as peças. Nós éramos crianças e juntos com ela começamos modelar as roupas em cima de outras e emendar. Eram camisas, os pedaços melhores que sobravam daquela camisa velha se tirava e se guardava para emendar em outras”, conta.
Ela conta que não existia ir para a cidade comprar roupas. “Nós íamos para a loja dos Buzzetti e lá tinha uma venda e comprávamos tecidos em metros, ou quando não utilizávamos o próprio tecido do saco de açúcar e de trigo. Os nossos lençóis eram feitos de sacos de açúcar. Não era só a toalha que a gente fazia”, conta. Ela recorda que não havia cobertores e no inverno passavam frio. Para amenizar o frio, a mãe se apropriava da capa do cavalo, que era utilizada para ir moinho e colocava na cama para ela e seu irmão Valduir, se aquecerem.
De 1976 para 1986, Devilda fui costureira, porém teve um intervalo, quando seu pai comprou uma bodega, mas ela não se adaptou nesse tipo de negócio. Seguiu na costura, mas quando nasceu o filho Luciano e a filha Sílvia, ficou mais difícil para atender a demanda e fazer peças sobre medida. Mesmo assim começou costurar também para as malharias, além de costurar em casa. Ela conta que uma lojista no centro de Farroupilha levava as peças para ela arrumar em casa. O trabalho era feito na sala da casa, que também servia de quarto. “Eu sempre pensei assim, um dia eu vou fazer alguma coisa na vida. Porque só costurar não dá, aí aquela lojista me disse assim um dia, você faz tanta coisa legal, não poderia fazer um mostruário para nós vender? Ela era representante comercial. Eu disse, como é que eu vou fazer um mostruário, não tenho dinheiro nem para viver. Ela disse vamos pensar”, lembra
Devilda disse que conversou com seu pai, Jurandir, com o marido, Segundo Biazoli e com o irmão Itacir, que já ajudava ela. Seu irmão era bancário naquela época e à noite assessorava nas costuras para as malharias. O seu pai respondeu que se estavam precisando ele emprestava o dinheiro para começar a comprar os tecidos. “Que alívio, uma pessoa me ofereceu trabalho e a outra dinheiro”, alegra-se. Com o dinheiro em mãos, Devilda e o seu irmão foram até Caxias em um sábado pela manhã e compraram os tecidos, ela começou modelar. Mas não largou o trabalho de costureira, costurava e modelava, montando pequenos mostruários.
Ela conta que a sua amiga, dona Terezinha, pegou o mostruário e saiu para vender. Sendo assim, a malharia foi registrada, no início como confecção, no dia 14 de julho de 1986. “E seja lá o que Deus quiser e fé em Caravaggio. E deu muito certo. Quando ela voltou, ela se surpreendeu, porque eu acho que eu já tinha feito uns 30 modelos. Nossa, vendeu para nós trabalhar muito tempo”, lembra. No começa era uma maquininha de Verlô, mas o novo empreendimento precisava de novas máquinas. Seu irmão permaneceu no banco. Já o seu marido ficou mais um tempo na estrada até os negócios fluírem.
“Era uma peça de 4×4, 16 metros quadrados. Era uma pecinha. Depois fomos para o porão da casa, começamos no porão e subimos para cima. O depósito estava na cozinha. Meu Deus, mas tudo certo. Ali eu vi que eu estava pequena em casa, sozinha em casa, com duas crianças e serviço. Era a Sílvia e o Luciano, os dois com três anos de diferença. O Luciano tinha seis e a Sílvia nove. Ali eu disse, bom meu Deus, agora o que vamos fazer? O Segundo disse, eu acho que vou vender o caminhão e vou trabalhar em casa. Mas o Itacir ficou no banco. Vamos garantindo, um por vez”, disse.
Ela conta que nesse momento sentiu medo, pois temia que não desse certo e seu marido vendendo o caminhão e deixando a estrada, como seria depois. No entanto, ele vendeu o caminhão e comprou uma máquina TRJ, no valor do caminhão, uma máquina de tecer (DTC). “Começamos no tip-top e nos abriguinhos, nós precisávamos de malha. Então a gente começou, com aqueles abriguinhos, era o que a gente fazia. E deu certo. Alugamos uma parte do prédio no Mercado de César, aonde que hoje tem a loja, na Madele, era a Biamar”, conta.
Ali estava sendo dado o segundo passo da Biamar. Para quem nasceu dentro do porão da casa, depois estar em um pavilhão maior, já era sinal de prosperidade. O negócio que havia iniciado com o dinheiro emprestado pelo seu Jandir, para comprar 100 metros de tecido, já era uma realidade. “Foi o que nos impulsionou. Quer dizer, foi aquele empurrão, aí a gente fez os pedidos e começou. E aí começou a girar, foi indo, uma hora que eu senti um aperto no coração, foi quando o Itacir tirou férias e disse, eu não vou mais voltar a trabalhar, nós já estávamos lá embaixo e precisava dele”, revela.
“Mas eu disse, não deixa de trabalhar no banco, porque se não der certo. Sabe aquela coisa de mãe. A galinha nunca põe os ovos sempre no mesmo ninho. Aquela mãezona que não queria que ninguém ficasse passando dificuldade. E aí tu sabe, ele voltou das férias e três dias depois fez um acordo e saiu do banco. Eu disse, mas tu está brincando? E se não der certo? Ele disse, eu tenho certeza que vai dar certo. Ele morava com o pai e fomos à luta. Em 1990 conseguimos ir no nosso prédio, pequenininho de 600 metros quadrados. E ali nós já tínhamos matéria para fazer os punhos dos nossos abriguinhos e depois a gente foi desenvolvendo ali nos 600 metros e fomos aumentando. Conforme que a gente tinha arrecadação, a gente investia” diz.
Ela conta que o único carro era um fusquinha e muitas vezes o conforto ou o bem-estar pessoal foi sacrificado em função da própria empresa. “A empresa não começou com renda para injetar. Nós não tínhamos renda. A gente foi um passinho por vez, aí o Luciano cresceu e foi o nosso primeiro programador, foi o nosso primeiro tecelã e foi indo. Mas o Luciano já tinha 15 anos, a gente conseguiu passinho a passinho. Nunca fizemos mais do que a gente podia, a Biamar, ela se construiu por ela mesma”, orgulha-se.
“Eu acho que tanto eu quanto o Itacir, o Segundo e a Sônia, todos nós, formamos um elo aqui dentro, a gente acredita muito, acredita que pode acontecer. A gente não trabalhou oito horas, a gente virava quase à noite. Hoje tem o pessoal, tem liderança e quem faça, mas nos primeiros anos era nós que ficávamos, que abria e fechava. Até hoje às 6h, a gente está aí. E eu aqui com 72 anos, firme e forte no desenvolvimento. É toda a família, a Sônia, o Itacir, a Devilda, o Segundo, a Sílvia, o Luciano, a Suelen e os filhos do Itacir. Não estão aqui ainda o Pedro, porque ele é um engenheiro civil e o João que está em Porto alegre”, conta.
Devilda acredita que são mais de 60 anos mexendo com tecidos, pois começou nas suas primeiras artes, aos 10 anos, quando cortou os vestidos da tia. “Eu tenho a minha máquina ali junto com a equipe do desenvolvimento. Olha se tu me perguntar que metragem que eu tenho?, quanto que eu preciso?. O que eu tenho para fazer, quase não uso metro, só no olho de tanto modelo que eu já fiz. Hoje está tudo na tecnologia, a gente não modela mais, é tudo no sistema, isso de uns 20 anos para cá que começou entrar tudo no sistema. Mas a máquina para montar tem que estar aí. E eu tenho uma equipe, trabalho com jovens. Então a gente trabalha, pensa, vamos fazer isso, vamos produzir aquilo”, revela
Em fim, são 40 anos de história da Biamar, que começou com 100 metros de tecidos. Hoje Devilda se perdeu nas contas de quantos metros de teares, nem quantas máquinas tem na fábrica. “São máquinas de costura, fechadeira, bordadeira, tudo vem junto. É uma loja imensa, é um sonho, não parece verdade. Eu não imagino lá atrás vendo hoje. Eu só tenho que agradecer. A gente passou pandemia, passou por muitos desafios aqui dentro. Planos econômicos e crises, mas a gente sempre foi batalhando. Quando fechou tudo eu chamei a minha sobrinha, que é médica em Caxias e disse, vem lá nos apoiar. O que nós vamos fazer com toda essa gente, ela veio para cá. Ela é médica intensiva, trabalha na UTI. Ela disse, tia, nós vamos fazer o que os hospitais estão fazendo, não tem problema, nós botamos Qboa e Gel por tudo”, recorda.
Outra medida tomada pela Biamar, foi separar todas as máquinas e hoje se comemora o fato de não ter tido nenhuma perda. “Não tinha um colaborador nosso que não chegasse com as calças manchadas até o joelho de gel. Lá fora já tinha um tapete para receber eles. Era um tapete de Qboa. Mas a gente teve essa graça, eu agradeço todos os dias a mão de Deus. Foi a mão de Deus, porque nós tínhamos aqui dentro quase 400 colaboradores. E todo o pessoal que vinha, era fevereiro e março, tempo de inverno, época da safra. Lá fora fila com os aquecedores, quando entrava um saía o outro. Foi difícil, mas a gente não parou nossa obra. Nós tínhamos quase tudo comprado. Pensamos, vamos continuar e a gente continuou, mas protegemos muitas pessoas. A gente fez muitas máscaras. fizemos muita coisa. E depois com as enchentes também. A gente trabalha muito no silêncio, não se expõe, faz doações e tudo bem, não é aquela empresa que fica dizendo eu ajudei aqui eu ajudei lá. Ajudar sim, bastante, mas no silêncio, como a gente sempre aprendeu. Tem alguém que está enxergando”, acredita.
A Biamar é a união de duas famílias, (BIA) Biazoli e Marmentini (MAR). “Eu não saberia viver em casa, porque quando eu chego aqui às 7h da manhã, é um bom dia, um sorriso, é muito legal. Então, isso me faz viver, eu chego em casa, tenho minha família é muito bom viver com a família. Mas aqui eu chego às 7h e saio quando eu achar que devo sair no fim do dia. É uma coisa que eu deixo bem claro para todas pessoas que estão nos ouvindo, acreditem, não pode desanimar, tem que acreditar muito que a gente é forte. Porque se não acreditar não chega a lugar algum. Ter o coração aberto. Hoje nós estamos com uns 450 colaboradores aqui dentro e a gente consegue olhar no olho do nosso colaborador, isso nos deixa de coração alegre. Não tem preço”, acredita.
Devilda, não tem limites para agradecer “Eu só tenho gratidão, mas gratidão mesmo. Eu sempre digo, não sou uma beata, mas eu gosto de rezar. Para mim isso é todos os finais de semana. Porque eu acho que eu recarrego a minha bateria. E todas as manhãs, eu vou ser sincera, antes de sair de casa, eu escuto um evangelho. O Frei Jaime, ou um primo que é sacerdote em Erechim, ele me manda a mensagem da manhã, é o meu começo é o meu bom dia é a palavra de Deu”, conclui.
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FOTOS: José Theodoro




















































