Aqui é Meu Lar conta a história de Valdir e Gilberto Bertuol que não conseguem romper as raízes com a agricultura

A Miriam Caravaggio 95.7 FM, veicula neste sábado dia 18 de novembro de 2023, o oitavo programa “Aqui é Meu Lar”, com o tema “Pés no interior, olhos na cidade. Volta às origens” O tema aborda pessoas que vivem no interior e estudam na cidade, ou que por muito tempo tiveram uma vida urbana e decidiram ir para o interior produzir, nascidos, ou não no interior. Neste sábado o programa retorna à Capela Nossa Senhora do Caravaggio (Caravagetto, no 4º Distrito de Farroupilha), para conversar com Valdir e Gilberto Bertuol e Nair Teresinha Preto Bertuol. Dois irmãos que vivem entre a cidade e o interior, mantendo as raízes e preservando a antiga propriedade de seus pais.

Em uma área de 24 hectares de terra, quase dois são ocupados para a plantação de parreiras. Soma-se à essa cultivare, uma quantidade de caqui (chocolate) e  produção de gado de corte. A uva rende em média 35 toneladas por ano, das variedades, niágara rosa e branca. Parte da fruta é entregue ao mercado catarinense e o restante para a Vinícola Motter, em São Martinho da 2ª Légua, em Caxias do Sul. A propriedade onde Valdir e Gilberto produzem é localizada em uma área extremamente íngreme, que exige muito trabalho e uma produção precoce, devido ao pouco frio. O Rio Forqueta passa por dentro da área e em épocas de cheias, impede que eles atravessem para o outro lado do terreno, onde tem plantado um hectare de uva e o rebanho de gado. Uma pinguela antiga possibilita o acesso para o outro lado.

Valdir Bertuol, tem 64 anos de idade e nasceu no mesmo local ao qual preserva até hoje, com muita dedicação e zelo.  A sua renda não vem somente de Caravagetto, mas de um viveiro, que administra em Nova Milano, onde tem residência fixa. Na colônia, ele vai quase todos os dias da semana tratar dos animais e do pomar, mas é nos finais de semana e feriados que sua presença é certa, pois aproveita para fazer as atividades e curtir o local onde se criou. “Minhas raízes são daqui, nasci aqui e fui na cidade, mas estou tentando manter minhas raízes aqui, cuidando das coisas que eram do meu pai, e estamos cuidando ainda, as parreiras, a plantação, tudo que temos por ai, estamos cuidando”, assegura. Valdir disse que gosta da propriedade e tem raízes fortes com o local. Ele é um dos nove filhos de Roberto Bertuol e Leonilda Bianchi Bertuol. Ele e Gilberto cuidam da antiga moradia da família. São dois irmãos que ainda lidam com a terra. Os demais estão espalhados com dois em Farroupilha e sete em Caxias do Sul. No passado Valdir teve a oportunidade de ir para Caxias, mas optou por ficar em Nova Milano e ali constituir família.

Nair Teresinha Preto Bertuol, tem 61 anos, nasceu na comunidade de São José, na Sete Colônia, pertencente à região de Nova Milano. Casada há 29 anos com Valdir, ela conta que quando jovem conheceu seu esposo nos bailes e jogos de futebol nas cercanias onde morava. Valdir e Nair são pais do radialista da rádio Miriam Caravaggio 95,7, William Bertuol, 26 anos. Ela nunca morou em Caravagetto, quando se casou fixou residência em Nova Milano, mas acompanha o marido em algumas atividades na colônia. Por um período, os pais de Valdir, Roberto Bertuol e Leonilda Bianchi Bertuol ( falecidos), foram morar com eles em Nova Milano. Nair é filha de uma família de quatro irmãos, mas não chegou a conhecer seu pai, o mesmo faleceu quando ela tinha seis meses de idade. Mais tarde, com sete anos, perdeu a mãe. Com a morte dos pais, cada irmão foi morar com famílias diferentes. Ela foi acolhida pela família de Iram Tolotti, em Nova Milano, que tinha somente um filho, com quem viveu 25 anos até se casar com Valdir. Da sua família paterna, duas irmãos já faleceram e o irmão mora em Curitiba, com quem  mantém contatos frequentes.

Gilberto Bertuol, 57 anos, tem negócios em Caxias do Sul, onde reside no bairro Rio Branco. Sócio de uma fábrica de telas com seu cunhado, ele tem liberdade para continuar ajudando o irmão na preservação da propriedade da família em Caravagetto. Ele chegou em Caxias há 31 anos e mantém as raízes na agricultura e vê dificuldade em romper essa relação. Conta que desde que deixou a moradia paterna, visita nos finais de semana a comunidade Caravagetto, para jogar futebol e se encontrar com os amigos. Aproveita também para trabalhar no sábado na poda e tratamento das parreiras, pois nos domingos curte o lazer na capela. Na safra da uva, em janeiro, ele tira férias para ajudar na colheita. “Eu gosto, interage com as coisas, não é sempre aquele serviço preso dentro da empresa, a gente vem aqui, a gente trabalha, tem os animais, tem os vizinhos, a gente se criou juntos e a gente gosta do pessoal daqui, do interior da vizinhança, a gente gosta”, confessa.

Dona Nair tem alto conhecimento no setor de alimentação, por 18 anos trabalhou produzindo em casa agnoline para uma padaria em Farroupilha. Ela começou  na época em que seu único filho nasceu, William, fazendo a especiaria em casa, mas logo foi procurada pela padaria para fornecer a produção para ser comercializada. Com o passar do tempo a empresa foi vendida para outro proprietário e ela continuou fazendo agnoline caseiro. Porém, mais tarde a padaria fechou e hoje dona Nair produz a especiaria por encomenda. Na propriedade em Caravagetto, Nair ajuda nas épocas de mais serviço, no tratamento das parreiras e colheita da uva.  Ela lembra que o dia-a-dia da cidade tem suas vantagens, mas também é bom ter um espaço no interior para os finais de semana, que serve como refúgio para tirar o estresse.

A propriedade de 24 hectares é bem utilizada dentro de suas características. De um lado a produção de uva e caqui e no outro lado predomina a criação de gado. O Rio Forqueta separa a terra a ponto de impedir a passagem dos proprietários, quando o rio fica cheio. Uma ponte foi fabricada no passado, mas foi levada pela força das águas. Todavia, isso não impede que os Bertuol, não acessem o outro lado do rio. Uma pinguela antiga, construída com cabos de aço e com o assoalho de madeira permite travessia. Do lado de lá, tem quase um hectare de uva, mas o restante da área é ocupado com grama para o gado. Do lado de cá, além da parreira tem a plantação de caqui e frutas para consumo próprio, como laranja, bergamota e outras. Valdir conta que o rio, há cerca de 30 anos, servia de lazer para muita gente que vinha, inclusive de Caxias do Sul, para se banhar no poço existem próximo à casa e assar carne às margens, conhecido até hoje como “O poço dos Bertuol”.

O rio cheio nunca foi empecilho para os Bertuol colher a uva do outro lado. Com a utilização de um molinete com dois cabos de aço, eles prendiam as cestas com a uva e movimentavam a carga até chegar no depósito, para ser transportada até o comércio. Valdir lembra que o equipamento chamava atenção de muitos curiosos que chegavam ir na propriedade ver o seu funcionamento. O equipamento foi adquirido de um viticultor que já utilizava para transportar a produção, em uma distância de 600 metros entre um morro e outro, porém, manipulado à motor, ao contrário dos Bertuol, que faziam o trabalho manual. “Botava quatro cestos de uva para o lado de lá, eu botava um copo d’água no meio da uva, chegava aqui do lado de cá, com o copo cheio, não saía um pinga d’agua de tão lento que vinha a coisa, tu botava a uva lá e chegava aqui em casa também, vinha bem lento. Era muito bom, funcionava muito bem”, explica.

Valdir conta que seu pai sempre teve medo que o morro caísse em cima da casa, tamanha a encosta onde está localizada a propriedade. Com essa preocupação a ideia era ir morar na cidade, por isso, ele chegou a comprar o material para construir uma casa em um terreno adquirido em Caxias do Sul. Porém, naquela ocasião começou a namorar Nair e surgiu  oportunidade de morar em Nova Milano, então Valdir decidiu transportar o material para Farroupilha e construir a casa onde mora até hoje. “Deus muitas vezes escreve certo em linhas tortas. Lugar bom para meu pai, passou os últimos anos lá, bem tranquilo, não tinha medo de nada, quando ele queria ir para a bodega ele ia a pé. Na missa eles iam a pé, porque era perto da igreja, lugar muito bom, quem vai lá acha um lugar muito bonito”, orgulha-se.

Valdir chegou ser pedreiro, mas devido a falta de trabalho no setor, na época, foi chamado para trabalhar na Esquadria Milon, em Nova Milano, onde trabalhou mais de três anos. Porém, não se adaptou ao trabalho fechado e montou um negócio com um amigo, que durou cerca de quatro anos. Na época decidiu desfazer a sociedade para cuidar dos pais. Seu Roberto preocupado com isso, ofereceu ajuda financeira ao filho, para que não saísse totalmente da sociedade. Mas Valdir preferiu deixar o negócio, comprou maquinário para trabalhar por conta e cuidar dos pais, atitude que manteve até a morte dos dois.

Assim, Valdir segue morando em Nova Milano, onde arrendou uma área para instalar seu viveiro e cultivar algumas variedades para o consumo. Seu dia-a-dia é mesclado à idas  na propriedade em Caravagetto, com o irmão Gilberto, onde produzem uva, caqui e criam gado para consumo próprio e venda. Gilberto mora em Caxias do Sul, onde é sócio de uma fabrica de telas, que vende diretamente na loja cuidada pelo filho. Ele conta que a decisão de ir para a cidade na época, foi puramente por opção para não ficar sozinho, pois era solteiro naquele momento. Na ocasião, Valdir e Gilberto planejaram deixar dois hectares para cultivo de uva e o restante destinar à criação de gado, o que acabou acontecendo e dando certo.

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